EXAME DO CREMESP - DESPREPARO DOS MEDICOS RECÉM-FORMADOS
Em
outubro de 2014, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo
(Cremesp) promoveu a décima edição do Exame do Cremesp, que avalia o desempenho
dos recém-formados em escolas médicas do Estado de São Paulo. Os dados obtidos
são alarmantes: dos 2.891 recém-formados que participaram do exame em 2014, um
total de 1.589 – ou 55% deles – não atingiram o critério mínimo definido pelo
Cremesp, ou seja, acertaram menos de 60% do conteúdo da prova. Os outros 1.302
egressos – ou 45% – alcançaram mais de 60% de acertos. Os números também
revelam as estatísticas em relação às escolas do Estado de São Paulo. Entre as
entidades públicas paulistas, a reprovação foi de 33%, enquanto que, entre os
cursos de medicina privados, 65,1% foram reprovados. “A insuficiência de conhecimento
de mais da metade dos egressos do curso médico do Estado de São Paulo evidencia
a necessidade de intervenção e revisão completa dos parâmetros do ensino da
medicina. Não é aceitável que faculdades sem hospitais-escola, com corpo
docente desqualificado, sem laboratório e recursos adequados continuem funcionando
com o foco exclusivo no lucro e colocando na assistência aos brasileiros
profissionais que nem para curar uma gripe servem”, comentou indignado, Antonio
Carlos Lopes, presidente da SBCM e atual diretor da Escola Paulista de Medicina
da Unifesp. Muitas das questões apresentadas pelo exame também exigiram dos
participantes conhecimentos básicos em Medicina de Urgência e Emergência. “Essa
prova indicou que não estamos dando o devido valor para algo que é muito
importante: a formação do profissional. E isso certamente está relacionado à
abertura de escolas médicas sem critério que não conseguem garantir qualidade de
ensino. É essa a política que o Brasil encontrou de formar mais médicos? ”,
questionou o presidente da Abramurgem, Fernando Sabia Tallo. A prova foi aplicada
pela Fundação Carlos Chagas (FCC) e teve duração de quatro horas. Foi composta
por 120 questões de múltipla escolha, com cinco alternativas de respostas,
abrangendo as principais áreas da medicina: Clínica Médica, Clínica Cirúrgica,
Pediatria, Ginecologia, Obstetrícia, Saúde Pública, Saúde Mental, Bioética e
Ciências básicas. De acordo com os critérios da FCC, o nível das questões abordadas
era de fácil e médio conteúdo, e o candidato deveria responder corretamente a
72 das questões, o que corresponde a um percentual de acertos de 60%.
Especificamente nas áreas de Clínica Médica, Clínica Cirúrgica e Pediatria, a
maioria obteve desempenho primário. Além dos médicos formados em São Paulo, o
exame também avaliou 468 egressos de cursos de Medicina de outros Estados
brasileiros. E o resultado indicou que entre eles a reprovação foi ainda maior
que a dos demais participantes, alcançando 63,2%. As dificuldades dos
participantes em várias questões revelaram a falta de conhecimento na solução
de eventos frequentes no cotidiano da prática médica. Muitos daqueles que
participaram do Exame do Cremesp de 2014 desconhecem o diagnóstico ou tratamento
adequado de casos básicos e problemas de saúde frequentes, como: atendimento
inicial de vítima de acidente automobilístico; atendimento de vítima de
ferimento por arma branca (47%); pneumonia (67%); pancreatite aguda (37%);
pedra na vesícula (67%). “À medida que os números são expostos, ao menos alguns
cursos se preocupam em melhorar seu desempenho. Além disso, a imprensa denuncia
e a sociedade faz pressão sobre a classe política e os gestores para a imediata
revisão do aparelho formador. É um avanço, mas não é o suficiente”, conclui
Antonio Carlos Lopes. Para Fernando Sabia Tallo, todos os Conselhos Regionais
de Medicina do País deveriam implantar a prova, seguindo o exemplo paulista.
“Ideal é que o exame seja unificado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e
obrigatório para todos aqueles que queiram exercer a profissão”, completa.