03/06/2014
às 6:17MOBILIZE-SE! Com agressividade e violência retórica, Gilberto Carvalho sai em defesa da ditadura petista por meio de conselhos. Ministro de Dilma defende o golpe do PT com unhas e dentes
Gilberto Carvalho, o homem da gravata vermelha, quer os sovietes à moda petista
É
o fim da picada! Gilberto Carvalho, o segundo homem mais poderoso do PT
(só perde para Lula) e secretário-geral da Presidência, é o mais
bolivariano dos ministros da presidente Dilma Rousseff. Nesta segunda,
em tom agressivo, ele saiu em defesa do absurdo decreto Decreto 8.243, aquele que institui pela via cartorial a ditadura petista.
Já escrevi a respeito do assunto, no dia 29 passado, o texto está aqui. Evidencio
lá que Dilma se dá o direito de definir o que é “sociedade civil” —
são os movimentos sociais — e que, na prática, ela os transforma em
instâncias da República não eleitas por ninguém. Trata-se de uma forma
descarada de golpe branco na democracia representativa. Com esse
decreto, os petistas outorgam a si mesmos o poder permanente, eterno, já
que a esmagadora maioria desses grupos é ligada ao PT.
Pego
no pulo, vendo que parte da sociedade percebeu a manobra, Carvalho
decidiu sair no grito e chamou os críticos de “hipócritas”. Fingindo-se
de inocente e leso, tudo o que ele não é, fez a seguinte indagação
retórica: “Como se pode falar em ditadura quando se fala em ampliar o controle da sociedade sobre o governo?”. Ora,
ministro… Isso é pergunta para enganar trouxas. O que teremos, isto
sim, será um maior controle da “sociedade petista” — e, portanto, de um
partido — sobre o governo, qualquer que seja ele.
Esse
caminho é conhecido pela Venezuela, pela Bolívia, pelo Equador, pela
Nicarágua. Esse caminho, saibam, é conhecido até por Cuba, formalmente
ao menos, uma das sociedades mais mobilizadas e mais organizadas do
mundo — mas sempre sob o tacão do Partido Comunista.
Carvalho achou que, se fosse agressivo e malcriado, poderia ter razão. Mandou bala: “Só
ignorância, má-fé ou desconhecimento histórico e a falta de uma atenção
à leitura ao primeiro parágrafo da Constituição pode levar uma pessoa a
fazer acusações absurdas como essas, de que estamos usurpando do poder
ou que estamos fazendo tentativas bolivarianistas”.
Errado!
Ignorante — ainda que seja ignorância voluntária, calculada — é a
declaração de Carvalho. Ele fala em primeiro parágrafo — suspeito que
quisesse dizer “artigo” — da Constituição? Então vamos a eles.
O primeiro parágrafo, no sentido propriamente textual, não jurídico, é este:
“Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.”
“Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.”
Onde
estão os “conselhos populares” de que trata o decreto presidencial? O
primeiro parágrafo fala, sim, em democracia direta, mas atenção!
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I – a soberania;
II – a cidadania;
III – a dignidade da pessoa humana;
IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V – o pluralismo político.Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I – a soberania;
II – a cidadania;
III – a dignidade da pessoa humana;
IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V – o pluralismo político.Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.
O
“exercício direto” do “poder do povo” se dá “nos termos desta
Constituição”, na forma de “plebiscito, referendo e iniciativa popular”,
conforme estabelece o Artigo 14. A Constituição brasileira não autoriza
os “sovietes” de Gilberto Carvalho. Assim, se existe má-fé nessa
história, ela parte de Carvalho e dos petistas.
O
decreto de Dilma é grotescamente autoritário. O Inciso I do Artigo 2º
abre as portas do poder para toda e qualquer organização. Está escrito
lá que “sociedade civil” compreende “o cidadão, os coletivos, os movimentos sociais institucionalizados ou não institucionalizados, suas redes e suas organizações”.
Atenção
para o truque, leitores! Tudo o que não é “institucionalizado é não
institucionalizado”, certo? Vocês querem ver eu abarcar cem por cento da
humanidade? Basta que eu me refira a “todos os corintianos e não
corintianos” (fatalmente, todas as pessoas do mundo são uma coisa ou
outra); a “todos os vegetarianos e não vegetarianos”; a “todos os
admiradores do Bolero de Ravel e aos não admiradores”; a “todos os
apreciadores de comida japonesa e aos não apreciadores”.
Ora,
a seu critério, então, o governo pode escolher um conselheiro de órgãos
federais da administração direta e indireta de um “movimento não
institucional” qualquer? Se a Associação dos Amigos de Gilberto Carvalho
quisesse, a seu modo, dar pitaco no governo, é claro que ela poderia,
certo? Afinal, tratar-se-ia de um movimento não institucional.
Gilberto
Carvalho, com o seu jeito santarrão, sabe ser truculento, mas nunca foi
um bom argumentador. Em defesa de sua tese, lembrou que a ditadura
militar criou diversos conselhos. Ainda que tivessem natureza distinta
desses que Dilma pretende instituir, a lembrança não deixa de ser
oportuna. Carvalho está dizendo que chegou a hora de instituir a
ditadura petista.

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